27 fevereiro 2010

Majestic Café



Majestic #002 [JMB]



I

Onde a poesia nas minhas palavras?
Não nestas que já morreram e
a Poesia é eterna ou
não nasceu nunca.
 


 


II

O homem da cidade de pedra
reencontra-se sempre que queira
sentado nesta mesma mesa de café.
Só, enquanto a noite não vem cansada
de outras tantas iguais.

Num esgar monocórdico de azedume  
- dilacerado pela indiferença alheia -
pede o cimbalino entre olhares
que se entrecruzam interrogativos,
inutilmente especulativos.
O homem perde-se na lonjura
que é a distância entre ele… e ele
o próprio. Cisão de personalidade
nesta trégua de que se faz o instante,
pendurado no fumo de um cigarro.

Os outros foram ao cinema,
Os Amigos da Onça, de gosto comum.
Os das Tertúlias
do Xadrez e da Música.
Da Literatura e da Filosofia.
Das Putas e da História.
Do Artesanato, das Viagens
e das paranóias domésticas.
Das Redes ditas sociais,
das Utopias. E da Poesia…

Falhados do sonho na luxúria
da imbecilidade. Na dor.
Essa que não se sente
mas em que se vive quando
a noite se faz noite
e a futilidade se repete, incansável.



 


III

Oh…  Majestic de sofás gastos no couro coçado,
de lâmpadas foscas de claridades obscuras…
a loira que se senta em frente é de um loiro doentio.
A loira é aberrante. A loira é
falsamente loira, pinta a raiz de negro.
A loira é caloira da vida
Tal como o chulo que lhe grita. Ornamentado a ouro,
tão loiro como ela mas mais esperto.
Causam arrepios os cabelos loiros dos loiros.
A loira é loira e pronto! O loiro… menos caloiro!

  

Majestic #006 [JMB]



IV

(Outono suspenso em folhas húmidas.
Desprendem-se secas do Verão
no chão da nossa impaciência
neste tempo que se faz gasto
irrompendo inseguro e tímido.)

 


Majestic #005 [JMB]

 

V

Neste café morre-se de pasmo
agonia-se sobrevivendo.
Não a vida que deambula
mas a porcaria e o esterco,
o desterro dos encurralados.
Da inútil banalidade, essa que
há muito cheira a impotência.
Não sabendo porquê… odiando,
adia-se o dia da partida.
Neste café morre-se de pasmo
de braços cruzados.
De pernas cruzadas.
De bocas cruzadas.
De linhas cruzadas.
No desespero…
cruzados.



Majestic #003 [JMB]

 

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09 fevereiro 2010

… por dentro a noite…

 

A vida muda depressa
a vida muda num instante *
 
 



Por dentro a noite... [JMB]





Percorra-se a noite por dentro do breu
deste imenso pedaço de céu.
Obscuridade apaixonada
pela lua branca de cal viva
espelhada nos telhados húmidos
fronteiriços aos terraços do ser.



Solte-se a noite nesta lua deitada
branca, imensa de incandescências e
claridades incisivas encobrindo
fictícias as nuvens no horizonte.



Sobre um rio imaginário
o nevoeiro alagado, expandido
até à bruma nocturna translúcido
nas luzes mais teimosas.



Luz difusa, encoberta melodia
de sonho nas brumas opacas
de que se faz a madrugada.
Desejos acorrentados



pelas sombras de quem não sabe
que o dia vem a seguir à noite.  Amanhã
é como a noite, a alba que em mim acontece.
E a lua branca espelhada nos telhados…
O rio encoberto pela magia da neblina…
A cidade parece adormecida…





* Por Eunice Muñoz em O Ano do Pensamento Mágico de Joan Didion, Teatro Nacional S. João, 22.01.2010



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