29 outubro 2011

Essaouira: O Mar, o Peixe e as Artes



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Partir de Marrakech com um certo travo amargo da melancolia, deixando para trás – não se sabendo até quando  num adeus até breve – a Cidade Perfeita que nos enche a alma ao encontro dessa outra de magia imprecisa… Essaouira. Alenta-nos a vontade de rever o oceano de há tantos dias desaparecido e aguçam-se os apetites por aquele que haverá de ser um memorável almoço de variedades de peixe fresco, escolhido e mandado grelhar, servido nas esplanadas, defronte para o mar. Mas antes há que percorrer cerca de 200 km e, a partir de meio-caminho – desde a pequena Chichaoua –, avançar por uma terra única em todo o mundo, a terra do “ouro do deserto”.

Falo-vos de uma vasta região árida do sudoeste onde se encontra uma floresta constituída por uma árvore pouco conhecida que pode durar até 200 anos, a argania spinosa ou árvore de argan ou, simplesmente, Argão. Dela se extrai o famoso óleo que tem sido uma das coqueluches da indústria cosmética mundial devido às suas reconhecidas virtudes e benefícios anti-envelhecimento da pele sendo a sua produção um segredo muito bem guardado pelas mulheres berberes que começaram a usá-lo há imenso tempo, quando descobriram os benefícios incríveis que traziam para a sua pele estragada pelo clima árido e ventoso de Marrocos. Este óleo cor de mel é rico em ácidos essenciais, antioxidantes e vitamina E. Em 1999, a UNESCO reconheceu e classificou a árvore argan como património mundial. Suas propriedades fazem dele um valioso óleo para cozinhar, realçando o sabor de pratos como o couscous , peixe e saladas.

Enfim… Essaouira, cidade da costa atlântica de Marrocos com cerca de 72 mil habitantes mantém o charme e a autenticidade de uma terra perdida no tempo. A sua medina encanta viajantes do mundo inteiro que aqui chegam à procura de um refúgio mágico e de ondas perfeitas. Com uma localização estratégica, foi redescoberta nos anos 60 por viajantes solitários e pelas vagas de hippies enamorados de Marrocos, tornando-se um local mítico para uma pequena elite de intelectuais, um refúgio de pintores, escritores, músicos, actores e realizadores de cinema de todo o mundo.

Em 1506 os portugueses construíram um forte, designado por Castelo Real de Mogador, tendo sido conquistado pelos marroquinos em 1525. Até ao século XVIII constituía-se apenas em um pequeno porto que o sultão de Marrocos escolheu para ser o porto exportador do país, passando a designar-se Essaouira. A ilha – onde se fizeram os maiores achados arqueológicos romanos da zona – é, actualmente, uma reserva natural cuja espécie mais preciosa é o falcão Eleonora, em vias de extinção. Os habitantes da cidade – os souiri – cobrem-se com djellabas da cabeça aos pés, como forma de protecção contra os ventos endémicos do oceano. Dos tempos da curta ocupação portuguesa restam poucos vestígios: troços da fortificação, alguns canhões e antigas peças de artilharia, a primitiva igreja e as fortificações na pequena Ilha de Mogador, frente ao porto.

Património Mundial da UNESCO desde 2001, a pequena medina de Essaouira – simples e despretensiosa –, encerra um conjunto de pequenos edifícios caiados de branco, pontuado aqui e ali pelo azul-marinho das portadas das janelas das ruas estreitas e angulosas. Mistura de povos e culturas que sempre caracterizaram a sua história cosmopolita, canal de comunicação com o estrangeiro e ponto de encontro entre africanos, judeus, berberes, portugueses e franceses. Entre as civilizações árabe, africana e europeia, aqui convivem duas tribos locais: os chiadma (árabes) e os haha (berberes), a etnia dos gnaouas – descendentes dos escravos negros que acompanhavam as caravanas de ouro e sal vindas do Sudão – e cerca de um milhar de ocidentais vindos em visita e que decidiram permanecer. 

Um micro mundo bem patente na sua cultura que tem vindo a conquistar o exterior, até pela sua música – a música gnaoua –, com fortes ligações às cerimónias mágicas do voodoo e da macumba brasileira. Os seus cantos e ritmos hipnóticos já seduziram o mundo e continuam a dar o mote para o grande festival de música que se realiza anualmente, atraindo milhares de espectadores, o Festival Gnaoua et Musiques du Monde que, em 2012, terá a sua 15ª Edição (21 a 24 Junho). Além dos artistas à procura de um retiro espiritual e de uma geração tardia de hippies, destaca-se um número cada vez maior de windsurfistas e surfistas que elegem Essaouira como a nova coqueluche destas actividades na costa marroquina, tornando-se o windsurf numa das imagens de marca de Essaouira, a nível internacional.

Essaouira distingue-se também pelos seus odores: o peixe fresco e o marisco grelhados, as especiarias, os pigmentos naturais, extractos de rosa, jasmim e outras plantas, e os intensamente perfumados pedaços de âmbar, fragrâncias de ébano, de limoeiro e de cedro. Principais essências utilizadas pelos cerca de 150 ebanistas existentes na cidade, considerados os melhores do género em todo o país e admirados por todos pelo minucioso trabalho de incisão na madeira, reproduzindo as geometrias dos desenhos previstos pelo Corão, baseados no alfabeto árabe: mesas, cadeiras, candelabros, caixas, cofres, tabuleiros de xadrez, pratos e copos.

Calcorrear vagarosamente as ruelas da medina é como banhar-se numa multidão polimorfa – integrando-se e dela fazendo parte – a quem a música gravada proveniente das lojas ou tocada ao vivo pelos artistas que deambulam, conferem um ambiente exótico capaz de nos enaltecer, tocando fundo o espírito e a emoção, que nem o decorrente incêndio num restaurante – interditando a nossa visita à muralha – nos impede de saborear e usufruir…
 


Fontes de Informação:



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Ser Nómada em Marrocos (FotoDiário de Viagem)


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